quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Arrebatamento

redemoinhos de silêncios, 
tanques fundos em eteceteras, 
universos de aerossóis envoltos em lunatismos,
estrondos dos clímaces dos lençóis de água dos céus,
fogos das dragonarinas do mistério como se fosse um beijo
.
.
.
adentrou-me os íntimos a poesia com um aperto de mãos.

(Francisco de Assis Carvalho da Silva Junior - Carvalho Junior, Caxias-MA, 2015)

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Gota d’água


há um diluviar de saudade
naquela gota d’água à beira da estrada,
mergulha uma onomatopeia
em cada canto dos meus olhos
:
inhamum!


(Francisco de Assis Carvalho da Silva Junior - Carvalho Junior, Caxias-MA, 2015)

sábado, 3 de janeiro de 2015

Fotografia do futuro


com um monóculo no bolso esquerdo da bermuda íntima e o temor de que o humano no mundo (em suma) pereça, o passado doma lágrimas e tremula com a fotografia do futuro nas mãos... discos invoadores, ultrarrígidos estão, aos poucos, dominando a galáxia chamada coração.

(Francisco de Assis Carvalho da Silva Junior - Carvalho Junior, Caxias-MA, 2015)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O cesto


fruta antecipada arrancada do pé, coração sonha, dentro de um cofo de mangas abafadas, com um pouco mais de madureza.

(Francisco de Assis Carvalho da Silva Junior - Carvalho Junior, 2015)

domingo, 28 de dezembro de 2014

Fardo


apresentada como uma força chamada mundo,
a corcunda de minha avó se adianta sobre as minhas costas.

(Francisco de Assis Carvalho da Silva Junior - Carvalho Junior, 2014)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Folclore




folclorizam em torno do meu nome como se eu fosse um poeta, o título é uma maravilha, um júbilo para meu ser... na verdade, sou um mero versicultor de desnacença que cultiva, também, veneno de marimbondo extraterrestre nos lábios.

(Francisco de Assis Carvalho da Silva Junior - Carvalho Junior, 2014)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Tutuca e o rio

Seguia a família de Caxias rumo à Teresina. Tutuca, menino de 5 anos, quando passava sobre o Rio Parnaíba, por uma das pontes que liga o município maranhense de Timon à capital piauiense, disse a todos que estavam dentro do automóvel: “Eu vou jogar esse carro dentro do rio”. Um silêncio nos afundou a garganta. Viajantes paralisados por um instante. Depois, todos riram e continuaram o percurso.

A frase de Tutuca, uma declaração infantil, foi realizada com um riso de inocência delineado nos lábios. Ainda assim, eu ficava cada vez mais com o corpo coberto de líquido, bebendo das águas do meu silêncio somado aos outros de dentro e fora dos carros do universo inteiro, em derramação de um choro interior pela falta de uma intervenção de minha parte. Poderia ter brincado com o menino, poderia ter articulado sobre a importância de não se lançar objetos no seio dos rios. Uma culpa me afogava e cada vez me lançava ao fundo de mim mesmo, porque Tutuca continuou a viagem comigo e não lhe ofertei uma palavra que pudesse ajudá-lo na formação de uma consciência ecológica.

Tutuca foi ao médico com a família, ao Shopping, a muitos outros lugares, sempre na minha companhia. Em nenhum momento uma palavra sobre o assunto que me estava engasgado. No regresso a Caxias, ao chegar na mesma ponte que havíamos passado, pedi para que o veículo fosse parado. Abri a porta, tirei cada peça que vestia e saltei do alto da ponte. Nunca mais minha voz voltou à superfície. Das zonas abissais de um silêncio aquaticamente doce, ouve-se, às vezes, um canto retirado das espinhas dos peixes: “Um olhar preservado em contemplação é o que melhor se pode lançar no coração de um rio”.

(Francisco de Assis Carvalho da Silva Junior - Carvalho Junior, 2014)

domingo, 14 de dezembro de 2014

Caminhada


perde meu peito todas as solas e vestes
sempre que passa por aquela calçada.


(Francisco de Assis Carvalho da Silva Junior - Carvalho Junior, 2014)

12 POEMAS DE CARVALHO JUNIOR*




Perfeita posição para poetar

adoro pegar a branquinha por trás
e com meu lápis sedento
enfiar no seu verso
todo o meu sentimento.
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Papai, mamãe e eu

papai que tem pavio resumido
gosta de falatório
mamãe que é cristã convertida
gosta de oratório
e eu que sou metido a poeta
prefiro escritório.
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A essência

ao nascer — a existência
na puberdade  — a saliência
quando adulto  — a independência
ser sempre criança  — a essência. 
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Hai, meus cokais!

se haicai chia
ou tem cachinhos...
se fuma cachimbo
ou banha na cacimba...
ai, Caxias, caixinha de surpresas!
só sei que eu caxingo,
só sei que eu cá xingo.
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Desatando os nós

nós somos mesmo nós?
nós somos nós mesmos?
(o) nós não existe entre (os) nós,
justo porque nós existimos entre nós
e nós não existem entre nós.
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A básica diferença entre humanos e poetas

para os humanos, criaturas simplórias,
a vida é um problema sério;
para os poetas, criaturas de outros imbróglios,
a vida é um poema certo.
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Palavras ensurdecedoras

o surdo é mudo quando não lhe é dada
a oportunidade de aprender a oralizar...
o mundo é surdo-imundo quando é dada,
ao homem que nele habita,
a oportunidade de ouvir a voz de um necessitado
e esse homem, que não lembra sequer de lavar as orelhas,
não concede a si próprio
a oportunidade de escutar o seu próximo...
isso porque há homens que são como papagaios:
homens do tipo meio loiro, meio “meu louro”...
o mundo precisa dar ouvidos para a poesia,
o mundo precisa ouvir para falar.
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Renovo

palavrinhando e passarinhando por dentro...
meu silêncio significa que estou mudando de penas.
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Cabra-macho

 o espinho de tucum que levo no braço é marca da minha bravura...
a pele de cabra-macho é dura, verdadeira arapuca pras mutucas.
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HD: homens desmemoriados
homens de hoje comemos, bebemos e flatulamos internet a olho cru...
reclamamos, injustamente, da falta de tempo e já não temos memória.
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O seguro céu do coração
pipa se empina é no profundo do peito: longe do filho
duma talvez séria mulher de olho gordo em nossa linha.
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Exercício da sensibilidade
se quiseres entender o poeta,
não abres o livro, desabotoa os vestidos dos sentidos.

*Textos extraídos dos livros “Mulheres de Carvalho” (Café & Lápis, 2011); “A Rua do Sol e da Lua” (Scortecci, 2013) e “Dança dos dísticos” (Patuá, 2014).