quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Tutuca e o rio

Seguia a família de Caxias rumo à Teresina. Tutuca, menino de 5 anos, quando passava sobre o Rio Parnaíba, por uma das pontes que liga o município maranhense de Timon à capital piauiense, disse a todos que estavam dentro do automóvel: “Eu vou jogar esse carro dentro do rio”. Um silêncio nos afundou a garganta. Viajantes paralisados por um instante. Depois, todos riram e continuaram o percurso.

A frase de Tutuca, uma declaração infantil, foi realizada com um riso de inocência delineado nos lábios. Ainda assim, eu ficava cada vez mais com o corpo coberto de líquido, bebendo das águas do meu silêncio somado aos outros de dentro e fora dos carros do universo inteiro, em derramação de um choro interior pela falta de uma intervenção de minha parte. Poderia ter brincado com o menino, poderia ter articulado sobre a importância de não se lançar objetos no seio dos rios. Uma culpa me afogava e cada vez me lançava ao fundo de mim mesmo, porque Tutuca continuou a viagem comigo e não lhe ofertei uma palavra que pudesse ajudá-lo na formação de uma consciência ecológica.

Tutuca foi ao médico com a família, ao Shopping, a muitos outros lugares, sempre na minha companhia. Em nenhum momento uma palavra sobre o assunto que me estava engasgado. No regresso a Caxias, ao chegar na mesma ponte que havíamos passado, pedi para que o veículo fosse parado. Abri a porta, tirei cada peça que vestia e saltei do alto da ponte. Nunca mais minha voz voltou à superfície. Das zonas abissais de um silêncio aquaticamente doce, ouve-se, às vezes, um canto retirado das espinhas dos peixes: “Um olhar preservado em contemplação é o que melhor se pode lançar no coração de um rio”.

(Francisco de Assis Carvalho da Silva Junior - Carvalho Junior, 2014)

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