domingo, 14 de dezembro de 2014

12 POEMAS DE CARVALHO JUNIOR*




Perfeita posição para poetar

adoro pegar a branquinha por trás
e com meu lápis sedento
enfiar no seu verso
todo o meu sentimento.
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Papai, mamãe e eu

papai que tem pavio resumido
gosta de falatório
mamãe que é cristã convertida
gosta de oratório
e eu que sou metido a poeta
prefiro escritório.
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A essência

ao nascer — a existência
na puberdade  — a saliência
quando adulto  — a independência
ser sempre criança  — a essência. 
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Hai, meus cokais!

se haicai chia
ou tem cachinhos...
se fuma cachimbo
ou banha na cacimba...
ai, Caxias, caixinha de surpresas!
só sei que eu caxingo,
só sei que eu cá xingo.
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Desatando os nós

nós somos mesmo nós?
nós somos nós mesmos?
(o) nós não existe entre (os) nós,
justo porque nós existimos entre nós
e nós não existem entre nós.
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A básica diferença entre humanos e poetas

para os humanos, criaturas simplórias,
a vida é um problema sério;
para os poetas, criaturas de outros imbróglios,
a vida é um poema certo.
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Palavras ensurdecedoras

o surdo é mudo quando não lhe é dada
a oportunidade de aprender a oralizar...
o mundo é surdo-imundo quando é dada,
ao homem que nele habita,
a oportunidade de ouvir a voz de um necessitado
e esse homem, que não lembra sequer de lavar as orelhas,
não concede a si próprio
a oportunidade de escutar o seu próximo...
isso porque há homens que são como papagaios:
homens do tipo meio loiro, meio “meu louro”...
o mundo precisa dar ouvidos para a poesia,
o mundo precisa ouvir para falar.
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Renovo

palavrinhando e passarinhando por dentro...
meu silêncio significa que estou mudando de penas.
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Cabra-macho

 o espinho de tucum que levo no braço é marca da minha bravura...
a pele de cabra-macho é dura, verdadeira arapuca pras mutucas.
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HD: homens desmemoriados
homens de hoje comemos, bebemos e flatulamos internet a olho cru...
reclamamos, injustamente, da falta de tempo e já não temos memória.
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O seguro céu do coração
pipa se empina é no profundo do peito: longe do filho
duma talvez séria mulher de olho gordo em nossa linha.
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Exercício da sensibilidade
se quiseres entender o poeta,
não abres o livro, desabotoa os vestidos dos sentidos.

*Textos extraídos dos livros “Mulheres de Carvalho” (Café & Lápis, 2011); “A Rua do Sol e da Lua” (Scortecci, 2013) e “Dança dos dísticos” (Patuá, 2014).



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